Contos

   
 

A Abundância

 

“As Sentinelas dos Dois Irmãos”

   
   
  Eram dois rios que corriam paralelamente.

O rio da Prata e o rio da Esperança mantinham uma distância de mais ou menos uns oitenta quilômetros um do outro. Embora diferentes nas suas riquezas naturais, já que o da Prata tinha peixes em abundância, enquanto que o da Esperança era rico em ouro e pedras semipreciosas, as similaridades também eram grandes. O homem, na sua corrida frenética pela fortuna, degradava os dois cursos de água, da nascente até onde o entusiasmo pude-se alcançar.

Os gananciosos pescadores lançavam suas iscas com uma voracidade desordenada, não chegando a respeitar, sequer, a época do defeso. Foram necessários poucos meses para que substituíssem suas pequeninas minhocas de anzol para o uso desenfreado das enormes redes. E em pouquíssimo tempo, o rio da Prata perdeu seus peixes.

Mas os ambiciosos garimpeiros não se fizeram de rogados. Na corrida pelo ouro – até porque os compradores não se interessavam tanto pelas pedras – usavam de todas as técnicas para uma garimpagem rápida e pouco responsável. O resultado disso foi um castigado rio da Esperança, que de tão explorado, já não interessava mais aos catadores de metais.

Mas o que não sabiam todos era que depois de percorrerem dois pequenos estados do país, o curso do rio da Prata mudava radicalmente de direção indo de encontro com o da Esperança. Em certo ponto do percurso, os dois uniam-se para formar o rio “Dois Irmãos”.

Os poucos ribeirinhos existentes na região, resolveram habitar aquele lugar, graças à beleza do local e por ser de difícil acesso aos degradantes.

Foi então fundado o povoado das “Sentinelas dos Dois Irmãos”.

Como gostavam de dizer seus habitantes, graças a um milagre – coisa de Deus – o rio tomava nova vida, ganhava novos peixes e pedras.

Importante dizer, que durante o dia, com o sol a pino, o reflexo solar nas águas do rio fazia com que os dias fossem muito mais claros. Era impressionante o espelho de luz sobre os peixes, que de tão iluminados, pareciam até feitos de prata!

E à noitinha? Em dia de lua cheia, ou seja, quando o reflexo da luz solar percorria toda a superfície visível da lua, o espetáculo era magistral! Quem subisse nos telhados das casas, admirava emocionado o “céu em plena terra”. Tal contemplação só era possível, graças ao reflexo da luz nas pedras, que de tanto brilharem, mais pareciam estrelas no fundo da água. E se um peixe mais desavisado, cruza-se repentinamente de uma margem a outra, tinha-se a impressão de que um cometa ali havia passado.

Os ribeirinhos viviam da agricultura; irrigavam suas plantações através de canais construídos por eles mesmos, com a água do rio amigo. Lá, agrotóxico era palavra proibida, já que o rio se encarregava de doar uma água pura e o solo da região era forte e produtivo.

Mas como não poderia deixar de ser, a publicidade de alguns viajantes, fez com que a tranqüilidade do povoado fosse abalada. E a chegada de curiosos ao vilarejo fez com que os poucos habitantes tomassem medidas importantes.

A primeira resolução foi à escolha de um “Prefeito” e de dois “Vereadores”. Desnecessário dizer, que como as Sentinelas de dois irmãos, era apenas um povoado perdido em meio à floresta, a escolha de mandatários serviu apenas para conferir autoridade e ordem ao local.

A população organizada atribuiu também, poderes de polícia (sem armamentos) a mais dois ribeirinhos. E para solucionar todas as pendências, foi então eleito um “Juiz”.

No primeiro sábado do mês, os escolhidos - na base do levanta o braço quem concorda com fulano de tal - foram empossados nos seus respectivos cargos.

Para Prefeito, o mais votado foi Paulo Malhado. Como vereadores tomaram posse, José Jenipapo e Clodoaldo Fernandez. E para terminar a solenidade, os dois guardas e o Juiz Nicolau Lauro.

A paixão que movia os habitantes, não era o dinheiro fácil que começava a entrar devido à chegada de recém casados que queriam curtir uma “lua de mel pertinho do céu”, e sim, a manutenção do meio ambiente, o sossego do vilarejo e o bem querer de todos os residentes.

A primeira resolução do prefeito foi à construção de uma ponte sobre os Dois Irmãos, para que os turistas não tivessem que arriscar a subida nos telhados das casas. Aliás, devido à aventura do sobe e desce, a segunda resolução foi adaptar um pequeno posto de atendimento na casa da Esmeralda, uma enfermeira de cidade grande e agora aposentada, muito acostumada a ferimentos mais graves do que pequenas torções de tornozelos.

E assim o vilarejo foi tomando forma de cidade. Desejo, inclusive da própria população que via a cada dia o senso demográfico ser alterado para cima.

Se alguém se atrevesse a jogar o resto do cigarro ou uma latinha de refrigerante na água do rio, o Juiz assegurava uma pena de três horas de estudos sobre o tempo de decomposição dos materiais e sua degradação à natureza. Tudo supervisionado pela Professora Lolinha.

Se um pescador em época de defeso, tivesse o disparate de pescar o peixe e não devolvê-lo imediatamente ao rio, a pena era de um ano de proibição em praticar a pesca.

E assim, as Sentinelas dos Dois Irmãos, conseguiram manter a ordem e principalmente, o rio vivo para que dele pudessem se servir, não só os moradores atuais, mais também aos seus netos, bisnetos, tataranetos...

Por Malu Iozzi