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Homero
é um senhor de setenta anos. Homem muito bem educado,
típico pai
de
família que não dispensa o almaço de domingo com toda a
prole reunida.
O
juiz de direito aposentado foi casado por apenas dez
anos com Glória, com quem teve três filhas. Talvez sejam
esses os maiores desgostos de Homero: perder a esposa
prematuramente e não ter tido nenhum filho varão.
Coube ao pai a criação das filhas. Mesmo ficando viúvo
tão cedo, o magistrado não quis saber de outra mulher.
Trabalhava o dia todo, ficando as crianças sobre a
guarda da babá, e à noitinha, dedicava-se as meninas.
Brincava, brigava, ajudava na lição de casa, e antes de
dormir contava histórias.
-
Meu nome é uma homenagem ao poeta grego Homero. Ele era
cego e peregrinava sempre apoiado por um bastão, pelas
cortes, nos mercados públicos daquela época, repetindo
seus versos em voz alta para que todos ouvissem. Ele se
inspirou na Guerra de Tróia para compor Ilíada. Já
Odisséia, trata das peripécias de Ulisses ocorridas
depois da guerra... – antes que pudesse terminar de
contar, as pequeninas já dormiam profundamente.
Passados mais de trinta anos da morte da esposa, Homero
se considera feliz e realizado.
Considerado por seus companheiros, um exemplo na
profissão que ocupou por tantos anos, aposentar-se foi
uma decisão bastante difícil. Principalmente por julgar
os novos magistrados muito jovens e sem conhecimento. E
para piorar, envergonha-se dos atos de alguns de seus
colegas. Notícias sobre vendas de sentenças são
responsáveis por seus comentários mais amargos:
-
Juiz por trás das grades é o maior sinal da falta de
ética vivida pelo nosso país. – falava com lágrima nos
olhos.
Mas
se tem uma coisa que tira realmente Homero do sério é o
Corinthians. Principalmente, porque nenhuma filha
casou-se com um corintiano, ou seja, por mais que o avô
tentasse, nenhum dos seis netos puxou o gosto
futebolístico do velho. Um santista, dois palmeirenses e
três são paulinos compõem o quadro aterrador.
Todo
domingo é dia de reunir a família à mesa. Conversas
animadas, debates entusiasmados que no final sempre
convergem para o futebol.
-
Ah! Se eu tivesse um filho homem... – gesticula bravo,
enquanto que os netos e genros formam o bloco dos
anticorintianos.
E em
dia de clássico, então? O coitado do velho sofre calado
a derrota de seu time.
-
Qual é o cardápio, hein vovô? Bife à Carpegiani?
-
Olha lá! Tem um corintiano pelado em campo... - riam
todos diante da ridícula cena.
Mas
quando Homero pensou que este seria mais um domingo de
piadas e risadas à custa de seu amado time, eis que
Valtinho – o neto são paulino – rouba a cena com uma
declaração:
-
Cansei de guardar o segredo do vovô. Já é hora dele
saber a verdade!
-
Espera Valtinho, eu prefiro falar com seu avô antes...
-
Não mamãe. Já esperei demais, não agüento mais guardar o
segredo – diz angustiado, o rapaz.
-
Fale meu filho! – pediu o avô.
-
Gostaria de ter dito antes, mas todos acharam melhor eu
aguardar os resultados dos seus exames. Como o senhor
está bem, não vejo motivo para esperar mais,
principalmente, porque gosto muito de você e acho que
merece saber a verdade.
-
Esse mistério vai acabar me matando. Conta logo, menino!
– retruca sem paciência.
-
Sou Gay!
Silencio sepulcral. Ninguém ousa dizer uma palavra,
apenas os olhares se procuram, como que se perguntando
qual será a atitude do progenitor. Garfos à mesa,
bocados engolidos sem mastigar. Alguns, de tão
engasgados, já aparentam extrema vermelhidão. Enquanto
que outros não conseguem disfarçar certa palidez diante
de declaração tão intempestiva. Ouve-se apenas o zumbir
das moscas que tranqüilas voam por entre os pratos
cheios de comida.
Diante do silencio do avô, Valtinho emenda:
-
Ronaldo está lá embaixo, apenas esperando para ser
apresentado.
Homero continua a olhar o vazio.
Depois de alguns segundos, chega Ronaldo. Então o velho
se levanta e começa a caminhar em direção ao jovem
casal. Temendo pelo pior, a mãe de Valtinho se põe a
andar em direção dos três, quando se surpreende com a
reação do pai. Como que batendo o martelo sobre a
questão, o juiz aposentado dá o veredicto ao caso:
-
Até que enfim terei o prazer de dividir o sofrimento e
as piadinhas de mau gosto, com um autentico corintiano!
– exclama o avô, dando um grande abraço em Ronaldo que
traja elegantemente a camisa sete do timão.
Por Malu Iozzi
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