Contos

   
 

"O Sineiro"

   
   
  Sino Pequeno, município que fica situado no norte do estado mais rico da federação, cresceu no centro das pequenas fazendas produtoras de laranja. Sua população, que não ultrapassa mil habitantes, em época de colheita triplica por conta da famosa festa da laranja.

Pois é justamente nesta ocasião, que a doceria da dona Cotinha fatura alto com a venda de suas famosas compotas, as deliciosas geléias, e para matar a sede de trabalhadores e turistas, os deliciosos gomos de laranjas geladas com coco. O estabelecimento é ainda o legítimo ponto de encontro do lugar que, de vez em quando, se vê abarrotado de pessoas em calorosos debates pelos mais variados motivos. Lugar bastante conveniente para os entreveros já que a doceira também ocupa o cargo de prefeita.

Sino Pequeno carrega esse nome, em homenagem à igreja da praça. O templo foi construído por um antigo fazendeiro, que doou parte dos lucros da sua produção para que ninguém ficasse sem missa aos domingos. Como grande parte da quantia acabou sendo utilizada na edificação, o dinheiro que restou foi suficiente para a compra de um sino de tamanho pequeno. Nem é preciso dizer da desproporção da construção em relação ao instrumento.

- Tamanha igreja para um sininho tão pequeno! – ironizavam alguns.

Mas é justamente o pequenino objeto, o grande causador da mais nova discórdia entre os moradores.

Com o crescimento de diversas religiões, e sendo o sino figura presente para os católicos, pois suas pancadas marcam batismos, nascimentos, casamentos, mortes, que uma parte dos moradores se insurgiu contra as badaladas.

- Não agüento mais acordar às seis da manhã. É justamente no domingo que tento colocar meu sono em dia – dizia Tião.

- Faz um barulho ensurdecedor – berravam todos ao mesmo tempo.

- O Tião prestou queixa na delegacia – lamentava o Padre.

- Calma, gente! – berrava Cotinha – o grupo do Tião constituiu advogado, e se não entrarmos em um acordo, o Padre será processado.

Na falta de entendimento, ficou deliberado que a partir daquela data, a igreja da praça ficaria impedida de fazer uso do instrumento.

No canto do salão, apenas o Sineiro chorava com o final de suas atividades.

Passado alguns meses, e com o mal-estar criado por atitude radical, o pasteleiro Daniel, fazendo valer seus direitos junto ao Poder Público, pediu nova reunião com todos os interessados.

Como o assunto era controverso, o salão da doceria ficou pequeno pra tanta gente. Depois de longo debate, em que todas as partes ameaçavam entrar com processos na justiça, ficou entendido que a contenda judicial seria longa e nunca colocaria fim a questão. Chegaram à conclusão que melhor seria usar o bom senso.

Ficou então estabelecido que o sino fosse utilizado para avisos importantes à população. As badaladas viriam em forma de avisos: três badaladas lentas para morte; cinco badaladas rápidas para nascimento; oito badaladas rápidas para incêndio; dez badaladas rápidas para fugitivos. Desta maneira, o toque do sino pequeno perdeu seu caráter religioso, agradando a todos.

Esfuziante de felicidade, o Sineiro já não via a hora de recomeçar o trabalho. Como o dia marcado para o reinicio das atividades foi no domingo, o rapaz teve que esperar os ponteiros marcarem onze horas – hora estabelecida para que todos esticassem o sono até mais tarde. A ansiedade era tanta, que para marcar a volta triunfal ao posto, resolveu juntar todos os acontecimentos da semana anterior. Na hora marcada, o rapaz passou a tocar forte e sem a cadência que a função exigia. O sino passou a tocar a rebate.

Nem é preciso dizer da confusão que se criou no lugarejo. As pessoas saiam correndo de suas casas, uns de pijama, outros pelados do banho, pois não sabiam ao certo se corriam do fogo ou se fugiam de bandidos.

No final, o espalhafatoso Sineiro foi perdoado por todos. Afinal, quem é que teria coragem de censurar a felicidade?

Por Malu Iozzi

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