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Aprendeu
desde pequenino a sentir, identificar e dividir os
odores ao seu redor. Quando perguntavam à mãe o porquê
do gosto tão extravagante do infante, a mulher resumia
em poucas palavras:
–
Deve ser coisa de outras vidas...
E
assim, Natalício Flores, cresceu e tornou-se mestre
perfumista. Um empreendedor nato que não demorou muito
como empregado da farmácia do bairro, preferindo a
independência do patrão, para poder finalmente criar
suas próprias fragrâncias. Desde a inauguração a loja
fora um sucesso, tendo como carro chefe, o perfume que
levava o nome de sua amada.
–
Minha mulher diz que me aproveitei da profissão para
conquistá-la – dizia malicioso – Na verdade, “quebrei a
cabeça” para criar o perfume que leva o nome da
Angelina, mas valeu a pena!
Mesmo diante de tanto sucesso, Natal – como era
popularmente conhecido – preferiu continuar fabricando
suas essências de maneira artesanal. Negava todas as
ofertas de compra de seu negócio e recusava cada nova
proposta de emprego. Gostava de atender pessoalmente
seus clientes, de ver como suas fisionomias
transformavam-se cada vez que exalavam um novo buquê,
arrancando suspiros de intenso prazer.
Suas
incríveis criações – verdadeiras obras de arte – eram
responsáveis por um laboratório abarrotado de essências
naturais e sintéticas, que misturadas em diferentes
quantidades, exalavam aromas aprovados por uma clientela
exigente, em que figuravam ricos empresários, belas
modelos, famosas atrizes e extravagantes socialites,
cujo alto poder monetário garantia o mimo de poderem
banhar-se com as fragrâncias produzidas pelo Mestre dos
Aromas.
–
Nos tempos remotos, os homens invocavam os Deuses por
meio da fumaça. Com a queima das ervas, vários cheiros
eram liberados. Foi assim que surgiu a palavra
“perfume”, em latim “per fumum”, que significa “através
da fumaça”. – exibia-se aos clientes.
Com
o passar dos anos, a sensibilidade para misturar
diferentes cheiros foi aumentando, e por conta disso,
Natal passou a criar perfumes exclusivos para aqueles
que tivessem paciência de esperar e dinheiro suficiente
para pagar pelo privilégio de ter um cheiro único. Se a
encomenda viesse de um rico empresário que costumava
apresentar tensão no seu dia-a-dia, o mestre fabricava
uma fórmula a base de lavanda, que serviria para
relaxar. Se o pedido partisse de uma mulher que
costumava se queixar de cansaço, adicionava alecrim para
aliviar a fadiga. Se algum freguês reclamasse de
depressão, incluía bergamota na composição. E assim, o
mestre percebia com exatidão, que com suas criações
exclusivas, em que adicionava diferentes componentes às
fórmulas, conseguia alterar parcialmente o estado
emocional dos compradores.
E
foi a falsa sensação de possuir a habilidade para mudar
o estado de espírito das pessoas – sentia-se um
verdadeiro Deus –, que quase arruinou a vida do
perfumista.
Natal acreditava que era perfeitamente possível criar um
cheiro que fosse capaz de causar felicidade às pessoas.
Que o simples inalar do aroma, seria o suficiente para
acabar com todas as angustias e frustrações. Por conta
disso, passou a trabalhar dias e noites, a misturar
todas as essências, a não dar o devido tempo de
maceração as fórmulas. Com tanto trabalho, isolou-se da
família, dos amigos e do que mais gostava em seu afazer:
do contato com os clientes.
E o
que resultou de sua desvairada aventura? O perfumista
perdeu quase todos os clientes, com a loja sempre às
moscas, teve de mandar embora os vendedores e, sem
alternativa, voltou para detrás do balcão e abandonou,
provisoriamente, o sonho da felicidade.
–
Como vai natal? – entra na loja o antigo alfaiate do
bairro.
–
Bem...
Depois de mais algumas trocas de frases vazias, o
alfaiate resolve contar sua história.
–
Costurava para alguns homens importantes do bairro, e
com o bom serviço prestado, acabei por ganhar fama na
cidade e depois em todo o país. Meus pontos precisos
foram responsáveis por me trazer grandes empresários,
deputados e ministros de estado. Fiquei extasiado com a
fama. E o pior, acreditei que com meu dom para a
costura, era capaz de transformar homens feios em
verdadeiros galãs, que meus ternos bem cortados, eram
capazes de causar uma imagem de retidão a políticos
sujos, que as linhas perfeitamente cerzidas do
colarinho, eram suficientes para asfixiar as mentiras
saídas da boca de homens desonestos. – fez uma breve
pausa para tomar ar – Acreditava que trabalhando
continuamente, não só vestiria o presidente da
república, como seria celebrado como um imortal, como
aquele que conseguia transformar perigosos lobos em
humildes cordeiros.
– E
então? – perguntou o perfumista.
–
Perdi minha mulher, meus filhos tornaram-se indiferentes
a minha presença e meus clientes mais comuns foram
embora, pois a minha arrogância e o total desprezo
diante de encomendas simples, resultaram na minha
falência profissional e pessoal.
Feitas as despedidas, o homem passou a remoer as
palavras ditas pelo alfaiate, e de certa forma, percebeu
que o relacionamento familiar tornara-se bastante
distante. Lembrou da figura da doce Angelina, andando
calada pelos cantos da casa e de seus filhos que sequer
apareciam para o tradicional almoço de domingo.
Repentinamente se deu conta de que o trabalho incessante
era o responsável pelo súbito vazio que sentia. Andara
tão transtornado em busca de resolver as aflições
alheias, que esqueceu da sua própria vida, da sua
própria felicidade.
–
Então, como descobrimos a felicidade? – perguntava a
netinha, que sentada sobre os chinelos do perfumista
aposentado, escutava atenta a história de vida do avô.
–
Depende daquilo que buscamos, do quanto valor damos ao
que temos, ou do que não temos... O importante é
entender que não são apenas os outros que vão nos dar
felicidade, a felicidade é extraída de nós mesmos!
– Tá
na mesa! – fala Angelina, enquanto coloca o delicioso
peru na belíssima mesa da ceia natalina.
Natal respira fundo e suga todos os aromas que cercam o
maravilhoso ambiente doméstico. A felicidade para ele,
naquele exato momento, resumia-se aos bálsamos exalados
pela reunião familiar e a lembrança em forma de oração
feita a Jesus, o único e verdadeiro Mestre dos homens.
Por Malu Iozzi
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