Contos

   
 

"Os Matizes da Vida"

   
   
  As pinceladas escorregavam fáceis sobre a tela. Liza – desde pequenina – gostava de guardar os momentos alegres do dia-a-dia, com precisão geométrica.

Os traços perfeitos retratavam o sobe e desce das crianças nos brinquedos da praça. Os braços assanhados dos pequeninos que procuravam avidamente o colo materno, cujo seio jorra garganta adentro, o néctar da vida.

Tudo era perfeitamente registrado. As pinceladas retratavam as cores mais cintilantes da alegria humana. O corre-corre, o pega-pega, a velocidade infernal dos moleques atrás da bola.

Os anos foram passando e a menina cresceu e virou moça bonita. Seus cabelos pretos eram delicadamente presos para que não atrapalhassem os olhos grandes e negros, que acompanhavam compassados a energia do pincel.

Seu rosto denunciava a segurança de quem sabe muito bem aquilo que faz. No quarto da jovem, o único ruído era promovido pelo pincel que dava os últimos retoques a obra.

Mas os anos também se passaram para a velha praça. O arco-íris das cores dividia lugar com o cinzento crime. A opaca cor retratava fielmente o alcoolismo precoce; o dinheiro farto – ganho sabe-se lá como – que brotava fácil para a compra da droga.

Jovens transtornados, alucinados, que conseguiam ensurdecer os sons da inocência infantil.

As crianças, que antes corriam atrás do brinquedo, davam lugar às outras tantas que corriam a mendigar.

As mães, que tomavam assento em todos os bancos da praça, para que pudessem vigiar seus filhotes dos acidentes tão peculiares da infância, disputavam agora os melhores lugares com os traficantes de plantão.

As pequenas quitandas, que viviam abarrotadas de frutas selecionadas, cederam seus espaços aos bares entupidos de bebidas alcoólicas e entremeados de música vulgar.

A vista do quarto de Liza, que era bucólica, se transformou em fantasmagórica e a maior responsável pela perpetuação de quadros em branco.

Cansada de tamanha inércia, a bela morena resolveu tomar uma atitude. Pegou sua caixinha de tintas que repousava diariamente sobre o batente da janela amparando-a em suas pernas, e com toda a força que podia despender, pôs a girar as rodas de sua cadeira.

Instalou a tela e todos os outros apetrechos em sua escrivaninha, tendo agora como nova inspiração, uma belíssima gravura de Jesus Cristo.

Diante de tão bela figura, a jovem parou para refletir e fez seu pedido:

- Querido Jesus. O Senhor bem sabe que essa cadeira prende meus movimentos, e por isso, desenhava apenas o que conseguia enxergar através da janela do meu quarto. Gostaria muito de poder voltar a colorir como antes...

O pedido foi tão verdadeiro, tão inocente, que horas depois foi possível ver seu rosto com um sorriso inexprimível. Suas mãos estavam novamente borradas pelas tintas, os pincéis ganharam movimentos ávidos que traduziam seus pensamentos, instantaneamente colocados sobre a tela.

Terminada a obra, aguardou o veredicto materno.

Ana tinha imenso orgulho da filha, que desde pequenina demonstrava ter o dom para as artes. Aprendeu a estimular a menina desinteressadamente, afinal, sabia que por ser criança, não deveria exigir perfeição ao extremo. Para Ana, a criança deveria aprender tão divina arte, divertindo-se.

Diante do novo quadro, a mãe não podia deixar de maravilhar-se. Notou que o verde das plantas ganhara novo brilho; que o céu era de uma intensidade indescritível; que o sorriso das crianças ostentava sensibilidade encantadora.

Nada ficou esquecido. Desde os pássaros até as flores e seus variados matizes.

A mulher ficou tão entusiasmada com o novo trabalho da filha, que nem percebeu que no fundo da paisagem, bem lá no fundinho, alguns tons de cinza contrastavam com tanto colorido.

Mas para a matriarca, o que interessava mesmo, era que finalmente Liza descobrira que apenas o seu corpo estava preso a um objeto metálico e sem vida. Que seus pensamentos eram capazes de avançar até outras dimensões. Dimensões essas, que só os grandes gênios são sensíveis o bastante para sentir e captar.

Por Malu Iozzi

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