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A
pequena Mariana era deficiente visual de nascença. Sua
cegueira era quase total, tinha apenas a capacidade de
identificar de onde vinha à luz.
Sua criação foi sempre muito custosa.
Desnecessário dizer que a falta de visão afetou todos os
membros de sua família. A começar pelo pai, que na
primeira dificuldade apresentada pela menina, foi embora
sob argumentos muito pouco convincentes.
Coube a Alice,
não só a criação, como também, a busca por programas e
serviços especializados. A mãe entendia que
a perda da
visão não significava uma vida de dependências; que
amparada por processos educacionais adequados, Mariana
poderia ser
auto-suficiente.
Para Alice, todo
o cansaço da jornada dupla de trabalho, era compensado
pelas conquistas diárias da filha. O uso exato da
bengala, o correto entendimento dos sons e o equilíbrio
na postura, davam a genitora o combustível necessário
para o prosseguimento nos afazeres.
As duas moravam
numa edícula. A pequena casa era totalmente adaptada às
necessidades de Mariana. Mas era no jardim que a menina
passava horas a fio. Quieta, ouvia os sons dos pássaros
a pousar nas folhas das árvores. Achava graça das
táticas utilizadas por sua mãe para atrair mais aves.
Bebedouros com água e açúcar, potinhos com frutas,
casinhas para ninho, tudo estrategicamente colocado para
que os bem-te-vis e as rolinhas tivessem uma hospedagem
cinco estrelas. E quando um filhotinho caia do ninho,
então? A mulher pegava imediatamente um paninho,
enrolava com destreza o filhote, deixando apenas sua
cabecinha para fora.
- É pra ele
ficar quietinho enquanto tento colocá-lo no ninho
novamente. – dizia animada.
E se não
bastasse todo esse trabalho, Alice ainda cuidava com
esmero de suas flores. Um jardim multicolorido e com uma
diversidade de causar inveja! Vez ou outra, a menina
intercedia à mãe sobre a variedade das plantas e seus
diferentes tamanhos:
- Porque os
Girassóis são tão compridos?
Para não deixar
a pequenina sem respostas, Alice procurava o florista do
bairro, que além de responder pacientemente as
perguntas, mandava um punhadinho de novas sementes para
ornamentar o terreno.
- Girassol
é uma flor grande, com uns 30 cm de
diâmetro, cujo caule pode atingir até 3 m de altura. -
Tomava ar para continuar – Ela é notável por "olhar"
para o sol.
- Como assim?
- O Seu João disse que...- Pegava o papel com as
explicações para relembrar – É um comportamento vegetal
conhecido como
heliotropismo.
- Então os girassóis são como eu...
A mãe coçava a cabeça, e como não tivesse entendido, a
garota prosseguiu:
- Os girassóis não procuram a luz? Pois eu também!
Quando acordo, no quarto escuro, procuro logo um facho
de luz... Quando estou no jardim olho sempre para o
sol...
Feliz por encontrar cúmplices à altura, já que os novos
amigos “pouco enxergavam”, mas que como ela, tinham
também a percepção da luminosidade, Mariana passou a
estudar com mais afinco sobre os novos companheiros.
Descobriu que os girassóis são plantas originárias das
Américas, domesticadas por volta do ano
1000 a.C.. Descobriu também, uma bonita
história de amor. Segundo a
mitologia grega, certa moça, chamada Clytia,
apaixonou-se pelo deus do Sol
Apolo e sem poder fazer nada, observava-o
cruzar o céu. Após nove dias, ela foi transformada em um
girassol.
E assim se
passaram muitos anos. Graças ao esforço e didacação da
mãe, Mariana transformou-se em uma mulher independente.
Devido a sua extrema sensibilidade, adquirida, em parte,
por conta das dificuldades ocasionadas pela cegueira, a
jovem tornou-se poetiza. Além disso, casou-se e é mãe de
uma linda menininha. A casa de Alice, já falecida, serve
agora de escritório, local onde encontra inspiração
necessária para compor seus poemas. Seus versos são
capazes de traduzir com realismo impressionante, as
cores que não enxerga e as formas que apenas conhece
pelo tato. Enquanto isso, a pequenina Amora, corre pelas
longas fileiras de girassóis que parecem “olhar
esbugalhados” a ligeireza da guria.
Por Malu Iozzi
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