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Bernardino
Figueira nasceu no litoral onde se criou e depois de
alguns namoricos de verão, casou-se com Otília. O casal
não tinha muitas posses, mas não pensem vocês que isso
influiu no número de filhos. Os oito rebentos cresceram
numa humilde casinha no bairro do Boqueirão na Praia
Grande, cercados de carinho, caprichos e devidamente
cobertos por um lindo chapéu de sol.
*A imensa árvore era a “filha” mais querida do
Bernardino, isso porque, o pequeno broto foi plantado ao
mesmo tempo em que iniciavam a construção do bangalô. Aí
daquele que encostasse inadvertidamente uma pá, ou
pisasse – mesmo que de leve – na coitadinha da árvore,
levava uma bronca daquelas!
*O casal criou muito bem os filhos, mas por questões
econômicas, nenhum deles seguiu o exagero dos pais.
- Já pensou Otília, se cada filho fizesse como nós –
parava para fazer as contas nos dedos – teríamos
sessenta e quatro netos!
- Credo, Bernardino! Onze está bom demais – exclamava
Otília, enquanto que o avô sorria da cara de espanto da
mulher.
*Desnecessário dizer que o local preferido pelo casal de
avós para o almoço em família era debaixo do chapéu de
sol. Com seus vinte e cinco metros de altura, a sombra
projetada pelas folhas era colossal. Otília, ainda
aproveitava dos frutos produzidos pelo vegetal para
tratar cólicas e disenterias. Efetuavam também, podas
para retirada dos galhos que cismavam em cair sobre os
fios elétricos, e ao menor sinal de contaminação por
cupins, a árvore recebia tratamento cuidadoso para que
não fosse necessária a sua extração.
*De nada adiantavam as reclamações dos filhos.
- Essa árvore só serve pra sujar o quintal. – dizia o
filho mais velho.
- E os morcegos, então? Dão cada rasante que às vezes
sinto um safanão na cabeça. – exagerava o outro.
*Volta e meia, enquanto Otília preparava o almoço,
Bernardino reunia seus netos e aproveitava para falar
sobre ecologia:
- Vocês sabiam que um grupo de árvores crescendo juntas
formam um bosque? E que uma floresta é um ecossistema
complexo formado por várias espécies de árvores e outros
vegetais?
*Diante da curiosidade dos netinhos o avô prosseguia:
- Pois saibam também que a indústria florestal ocupa
longas áreas de terra e a exploração de madeira em
florestas naturais é uma das principais causas de
desmatamento e da perda do habitat de várias espécies, o
que ameaça seriamente a biodiversidade do planeta. –
tomava ar para prosseguir – As árvores crescem em média
cerca de doze centímetros por ano, é um processo lento
que dura dezenas ou centenas de anos!
*Divertia-se com o assombro dos pequeninos, diante de
tanta informação.
- Vejam como é importante que cuidemos das árvores. Mas
do que um mero passa-tempo, a arborização é importante
fonte de alimento para diversas espécies. Por mais que
elas sejam responsáveis pela “sujeira” em nossos
quintais e ruas, é inegável o bem-estar que um local
cheio verde nos causa. As árvores diminuem a poluição
sonora, ajudam a regular a temperatura e liberam
oxigênio na atmosfera, o que ajuda a aumentar a umidade
do ar e a conseqüência disso é a absorção do gás
carbônico, que é o responsável pela camada de ozônio.
*E com conversas insistentes sobre o meio ambiente,
Bernardino julgava estar criando verdadeiros pupilos
defensores do ecossistema. Chegou à conclusão, que havia
errado com seus filhos, ao ter deixado matéria tão
importante como essa, apenas aos cuidados da escola.
*Hoje, passados poucos anos da morte dos pais, os oito
filhos reunidos, resolveram manter a casa para suas
férias de verão. Não sem antes derrubarem a “filha
preferida” de Bernardino.
- Afinal, é só uma árvore! – era o argumento mais
utilizado por todos.
**O antes querido chapéu de sol, responsável pelo
frescor da casinha em pleno verão, é agora o único
culpado pela umidade encontrada no bangalô. A árvore,
que antes servia como verdadeiro habitat para os
pássaros e seus ninhos, é atualmente a responsável
direta pela “grande” quantidade de morcegos encontrados.
Se suas folhas eram poderosas fontes de remédio para os
males do intestino, hoje, seus frutos podres são
acusados apenas de “sujar” o quintal. Seu enorme tronco,
que anteriormente era considerado lugar ideal para
reunião da família, é agora o único responsável pela
raiz que insiste em “arrebentar” o humilde piso de
cimento.
**Infelizmente, os netinhos não cresceram a tempo de
impedir a queda da árvore. Não tiveram a chance de
argumentar e mostrar o imenso lado bom do querido chapéu
de sol.
**E você, já plantou sua árvore hoje?
Por Malu Iozzi
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