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Nem
mesmo as intempéries climáticas – graças ao trabalho no
parque – eram capazes de tirar o sorriso do rosto da
Felicidade.
A vendedora de
algodão doce, que há mais de quinze anos adoçava a vida
dos freqüentadores, era – como o próprio nome diz – a
felicidade em pessoa.
E quando
cismavam em perguntar se ela não se cansava de, todo o
santo dia, empurrar o pesado carrinho, ela simplesmente
dizia:
- Adoro meu
trabalho. É cansativo, fico exposta ao sol e a chuva,
mas ainda assim, não troco ele por nada.
E a predileção
da mulher tinha um bom motivo. O local escolhido para
abrigar o pequeno negócio ficava bem ao lado de um
enorme chafariz, que por tradição, abrigava todas as
súplicas enviadas em forma de moedas.
Pois era
justamente a tal fonte, o pedacinho mais movimentado do
parque. Ninguém ligava para o dia da semana, nem se
fazia frio ou calor; o mais importante para as pessoas
era ter a esperança de ver seus pedidos atendidos.
- Já ouvi de
tudo aqui!
- Já pegou uma
dessas moedas? – perguntava o bisbilhoteiro.
- Cruzes! –
fazia o sinal da cruz – Tá maluco? O pessoal respeita
muito isso aqui! – dizia indignada, enquanto apontava
para a enorme quantidade de centavos submersos.
Mas o que
causava perplexidade aos demais trabalhadores do parque,
era a enorme facilidade com que a maioria dos
freqüentadores pidões confessava seus problemas para a
risonha mulher.
Fosse por
sentirem-se agasalhados por acolhida amistosa, ou
simplesmente pela necessidade urgente de botar para fora
os desesperos contidos, que a vendedora acabou eleita
como a “ouvidora” do parque.
- Olha o algodão
doce! – gritava – Verdadeiros pedacinhos do céu...
- Isso não é pra
mim. Vivo num verdadeiro inferno! – e assim começava
mais um bate-papo que, invariavelmente, terminava num
simples sorriso de agradecimento.
Seus filhos
gabavam-se com os parentes, de que se a mãe cobrasse por
cada “consulta”, estaria milionária. Não compreendiam
que o que realmente movia a mulher era a alegria de ter
ajudado alguém, de fazer pelo outro o que gostaria que
fizessem por ela.
- Por que está
chorando minha querida? – pergunta carinhosamente para
uma menininha, que tentava equilibrar-se nas pontas dos
pés, como que tentando tomar uma moeda do fundo do
chafariz.
- Não agüento
mais ver o papai brigando com a minha mãezinha...- passa
a mão nos olhos para se livrar das lágrimas. – Ela pegou
um dinheiro pra comprar pão e jogou o troco aqui! –
apontou com os dedinhos para a fonte.
- E é por isso
que você quer pegar o dinheiro de volta? – perguntou já
sabedora da resposta.
- É. Ele ficou
bravo, disse que como tá desempregado, não pode ficar
jogando dinheiro fora!
- Hum...Tome
aqui! – estendeu uma moedinha para a meninota.
- Obrigada,
quando papai arrumar emprego, eu venho devolver o
dinheiro pra senhora.
E como ficasse
emocionada com a honestidade da pequenina, emendou:
- Tem uma
condição.
A criança lançou
um olhar triste para a vendedora.
- A partir de
hoje, sempre que você ficar jururu, eu quero que venha
comer um algodão doce e escutar lindas historinhas com a
tia Felicidade.
A vendedora
viveu por mais quinze anos, tempo suficiente para
atender a todos aqueles que necessitassem de um ombro
amigo, e período importante em que auxiliou a menina a
esquecer os momentos de tristeza viajando no mundo das
fábulas.
- Olha o algodão
doce! – gritava – Verdadeiros pedacinhos do céu...
Mas quem pensava
que o chafariz dos pedidos iria ficar órfão, enganou-se
redondamente. Corina, a pequenina de olhar tristonho e
eleita de Felicidade para continuar com o negócio, era
agora a nova ouvidora do parque.
E quando lhe
perguntavam se ela não se cansava de trabalho tão
pesado, dizia:
- Pesados são os
fardos carregados por muitos dos desesperados que vem
até essa fonte. Minha função aqui é de levar o sustento
pra casa e, se possível, ajudar a aliviar a carga dessa
gente.
- E por que você
faz isso nesse lugar? Podia vender seus “pedacinhos do
céu” ao lado da igreja...
- Porque quem
tem fé, já traz Deus em seu coração. Aqui não! Aqui as
pessoas estão dispostas a pagar para ter algo em troca,
barganhar entende? Essas pessoas sim precisam de uma
palavra de esclarecimento, necessitam de uma pontinha de
esperança para enxergar um pedacinho do céu, para sentir
o poder da fé...
Não é possível
dizer se todos aqueles que outrora procuraram pelo
chafariz e deram de cara com a Felicidade, tiveram seus
desejos atendidos. Mas uma coisa é certa, encontraram no
parque um ser humano muito especial, alguém que
acreditava ter uma missão e que com isso acabava por
fazer a diferença nesse mundo onde todos parecem fadados
a ser simplesmente iguais.
Por Malu Iozzi
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