Contos

   
 

"O Ermitão"

   
   
  Ermírio foi criado na roça. Acostumou-se desde cedo ao trabalho duro, calejando não só as mãos – resultado do debulho do milho – como também o espírito.

Antes que pudesse realizar o sonho de viver na cidade, resolveu se casar com Florzinha. Como presente pela união, ganhou do patrão um pequeno terreno, sob a condição de plantar um número de pés de milho que fosse suficiente para ser partilhado. E como terra dada, não se abre a boca, a idéia fixa de tentar a sorte em um centro urbano qualquer, acabou sendo esquecida.

Depois de duas décadas de matrimonio, enviuvou. Sem a esposa para ajudar, resolveu mandar o único filho para a grande metrópole:

– Vai pra cidade procurar uma vida melhor! – dizia para o rapaz.

Com o pouco dinheiro que conseguiu juntar e com a aposentadoria garantida, o homem resolveu comprar uma pequena borracharia que ficava à beira da estrada de terra. O caminho, apesar de tortuoso, era a única alternativa de acesso para quem saia da rodovia com destino as fazendas da região. O aposentado adorava o novo serviço. Cuidava da borracharia com a mesma veneração com que um padre cuida de uma capela.

Mas estavam enganados aqueles que acreditavam que a lida diária do velho fosse diminuir sensivelmente. Os buracos – verdadeiras crateras – eram os responsáveis pela grande quantidade de pneus furados e suspensões quebradas.

E assim os anos foram passando. Com o êxodo dos trabalhadores rurais para a cidade grande – culpa da colheita mecânica dos grãos - a estradinha foi ficando cada vez mais vazia. Eram raros os momentos em que avistava uma caminhonete necessitada de algum reparo. Diante de tanta solidão, Ermírio foi se tornando um nostálgico:

– Pra que assistir televisão? Antigamente via às novelas com a sua mãe. Mas hoje em dia, tá uma pouca vergonha! È um troca-troca de casal.- resmungava ao telefone com o filho.

O radinho de pilha era seu companheiro fiel. Através do pequeno aparelho, convenientemente encostado ao ouvido, ficava sabendo das últimas notícias. De vez em quando, se pegava resmungando indignado, tendo apenas a pequena Lola – sua vira-lata – como testemunha:

– Fidumaégua! Político ladrão eleito com votação recorde... Êta mundinho ruim sô?

E quando surgia um lavrador, então? Era conversa pra mais de metro:

– Óiaqui, Ermírio. – mostrava a camisa do time do coração – Meu time é campeão!

– Se devia era tá chorando! Na minha época eu sabia direitinho, a escalação do time titular de muitos clubes. Hoje em dia é um banzé...

O amigo mudava a prosa:

– Viu o caso daquela moça que matou os pais? – perguntava estarrecido.

– Vi sim, ô se vi!

– Meu Deus, é o fim dos tempos!

Mesmo octogenário, e com o fechamento do pequeno caminho esburacado – graças a uma nova via construída pela concessionária da rodovia ao lado – o lavrador aposentado recusa-se a ir morar com o filho:

– Arre égua! Prefiro morar aqui sozinho a viver nesse mundo endiabrado. É bala perdida pra cá, tráfico de droga pra lá – faz o sinal da cruz – E pensar que te mandei pra aí, achando que ia se bom pra ocê!

– E o senhor não sabe da última. A sua neta me deu um tremendo desgosto.

– Num diga!

– Tive que agüentar as risadinhas pelas costas, lá no escritório, durante toda essa semana.

E com a mudez do ancião, o filho emenda:

– A Nandinha foi filmada na avenida Paulista, em plena passeata gay, abraçada com uma loira de parar o transito!

- Desconjuro!

O ermitão desliga o telefone e sai correndo em direção a sua cadeira de balanço, na esperança de ter a sorte de ver uma estrela cadente, que leve junto com ela, as suas preces de paz. Ao seu lado, a sem-vergonha da Lola balança o pequenino rabinho, feliz por ter grudado em suas tetas, as mais novas crias, que sorvem famintas o néctar da vida.

- Essa é a parte que me cabe neste latifúndio...- cantarolava ao mesmo tempo em que abria um sorriso largo, coisa de quem sabe viver a vida modestamente.

Por Malu Iozzi