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Dois
irmãos caminhavam todos os dias pela mesma estrada de
terra em direção à fazenda mais próxima para lavrar a
terra. Fizeram isso por alguns anos até que o irmão mais
novo resolveu tentar a sorte na cidade grande.
Dorival arranjou emprego de contínuo em um escritório de
advocacia. Trabalhou muito e estudou como poucos.
Formou-se advogado, constituiu família, comprou uma boa
casa, um carro elegante, enfim, venceu na vida.
Demerval continuou arando a terra. Trabalhou muito e
conseguiu comprar seu pedaço de chão, construiu uma boa
casa para morar com a mulher e os dois filhos, enfim,
podia plantar o que quisesse naquele terreno.
Passado muitos anos, os irmãos se reencontram no velório
da matriarca da família:
- Como vai você Demerval? – os irmãos trocam um breve
aperto de mãos.
- Vai se indo, você bem sabe como é dura a vida no
campo...
- Mas você está com uma ótima aparência! – observa
Dorival.
- É só aparência mesmo. Na verdade minha vida não tem
sido fácil. – responde em tom lamurioso.
E como o irmão da cidade continuava calado apenas
observando o irmão do campo, Demerval aproveitou para
desferir longo rol de queixas sobre a vida:
- Você que é feliz. É casado com uma bela mulher, tem
filhos estudiosos, uma casa enorme, um carro que te leva
todos os dias de casa para o trabalho...Em compensação,
olha bem pra mim! Sou casado com uma mulher que só faz
reclamar a cada nova praga na plantação, meus filhos
nada querem com os livros, ando a pé todos os dias pelo
plantio com o sol a castigar a minha pele, e pra piorar,
estou com uma úlcera que está acabando comigo.
E foi assim, do velório ao funeral, reclamando melhor
sorte na vida.
Terminado o cerimonial, os irmãos despendem-se dos
lavradores e começam a caminhar de volta para a casa da
família.
Dorival se emociona ao rever seu passado. As mesmas
paisagens, as mesmas fazendas, a mesma estradinha de
terra. Teria a nítida impressão de que o tempo não havia
passado por aquela região, se não fosse seu irmão a se
lamentar por todo o percurso. Cansado de ouvir tantas
reclamações, Dorival sentencia:
- Chega Demerval! Você acha que os problemas só existem
para você? Que minha vida é uma calmaria, livre das
tempestades? Pois você está muito enganado.
O irmão do campo senta-se à beira da estrada, assustado
com a reação intempestiva do irmão da cidade. Dorival
prossegue:
- Sim, sou casado com uma bela mulher, mas que me pede,
todos os dias, um novo ornamento para nossa casa. Tenho
dois filhos muito estudiosos, mas que chegam tarde todas
as noites, e nem sequer me dão satisfação com quem
andam. Tenho um carro que me leva ao trabalho, mas
gostaria de poder caminhar ao invés de me aborrecer no
transito caótico da cidade grande...Então, olhe bem pra
mim meu irmão! Sou um homem com tantos problemas como
qualquer outro. Não pense que o dinheiro e o sucesso na
profissão me privaram das preocupações diárias.
- Não imaginava que você tivesse tantos problemas...-
balbucia Demerval, já meio sem graça.
- Sabe o que nos diferencia, mano? É que enquanto você
está aí, sentado à beira da estrada reclamando da sua
“pobre” vida, eu levanto todos os dias, e agradeço a
Deus pela oportunidade de estar vivo e com saúde para
enfrentar as dificuldades diárias.
Dorival estende as mãos e levanta o irmão, que sentado
ouvia atento as palavras inteligentemente proferidas.
E então os dois homens voltam a caminhar pela boa e
velha estrada de terra, que contrariando a modernidade
das auto-estradas, resiste bravamente, levando seus
amigos lavradores pelo caminho mais que conhecido,
caminho que não permite atalhos, nem reclamações...
Por Malu Iozzi
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